Quem tiver boa memória, talvez se lembre daquela máquina de venda automática de pizzas que apareceu há alguns anos perto de Moncloa. Funcionava 24 horas por dia, prometia tirar-nos da pressa com massa congelada e, em apenas três minutos, entregava uma pizza quente, mais útil para acalmar a fome do que para se tornar uma refeição memorável. Chamava-se Pizzodromo e, a dada altura, fechou. Mas a ideia – a pizza imediata, sem mãos humanas pelo meio – parece não ter desaparecido completamente. Ou, pelo menos, regressou reformulada.
A francesa Pazzi escolheu Madrid para abrir a sua primeira loja em Espanha – já tinha algumas lojas em Paris, de que os nossos colegas do Paris Secret falaram, mas que agora constam como fechadas no Google Maps. O Pazzi vai abrir na Calle Gaztambide, número 14, no coração do bairro de Chamberí, a dois passos do nó de Moncloa e da sua clientela mais óbvia: estudantes, noctívagos e curiosos sobre fast food pós-humana – se é que isso é uma categoria em si.
A premissa é clara: aqui não há cozinheiros. Também não há empregados de mesa. Desde o momento em que faz o seu pedido num ecrã tátil até receber a sua pizza (em teoria, em menos de cinco minutos), todo o processo é executado por robôs. Literalmente: amassar, cobrir, cozer, cortar, embalar e servir.
Pizza com o selo de um campeão… e o espírito de uma fábrica.

Por trás dessa coreografia automatizada está uma tecnologia desenvolvida pela empresa brasileira Pibra e um nome de referência para dar um rosto (e legitimidade) à invenção: Thierry Graffagnino, tricampeão mundial de pizza. Ele assina as receitas, supervisiona os ingredientes e garante que, pelo menos no papel, o que sai da máquina tem um certo padrão.
Como explica Pazzi, a massa é feita com uma mistura de farinhas concebida para garantir a consistência geral, o molho é assinado pela Cirio – um nome respeitado na indústria italiana do tomate – e os ingredientes são ultracongelados utilizando uma tecnologia chamada IQF. Tudo isto para que a máquina possa funcionar em pleno: até 80 pizzas por hora, 24 horas por dia, 7 dias por semana.
A abertura da unidade de Madrid está também associada a uma campanha de marketing direcionada: sorteio de um ano de pizzas grátis (uma por semana), merchandising e presença nas redes sociais com vídeos do processo.
Nem trattoria, nem delivery, nem restaurante
O que Pazzi propõe não é tanto uma experiência gastronómica como uma solução logística. Eles próprios o dizem: a sua intenção não é competir com as pizzarias de bairro ou com as trattorias que defendem a pizza napolitana como se fosse um bem cultural. O Pazzi chegou para ocupar um outro espaço: o do fast food sem fissuras, sem paragens e sem margem para erros.
Mesmo assim, é difícil não saudar esta abertura com um certo ceticismo. Madrid não é exatamente uma cidade com falta de pizzarias, e o nível médio subiu consideravelmente na última década. O artesanal está na moda, o forno a lenha é quase um padrão, e cada bairro tem várias opções dignas que oferecem muito mais do que rapidez – aliás, algumas delas pode ver neste artigo.
Pazzi está empenhado numa outra narrativa: a da automatização como solução para os problemas estruturais do sector (falta de pessoal, custos laborais, horários impossíveis). Uma narrativa que, em vez de entusiasmo, convida à dúvida e à suspeita.