Madrid incorpora oficialmente duas obras originais de Juan Carlos Argüello, conhecido como Muelle, ao seu património artístico e cultural, uma decisão histórica que consagra a marca do graffiti no legado institucional da cidade. A Comunidade de Madrid adquiriu duas assinaturas icónicas em papel criadas por Muelle, uma em tintas gráficas azuis, vermelhas e ocres, e a outra em branco sobre couro envernizado fúcsia, do arquivo pessoal e familiar do artista, gerido pelo seu irmão. Com este gesto, o legado de Muelle passa a ocupar um lugar central entre as colecções protegidas da região.
Esta aquisição não é um acontecimento isolado, pois vem na sequência da proteção da assinatura original que figurava nas obras da Cava Alta e de outras assinaturas emblemáticas situadas na calle Montera ou na antiga prisão de Yeserías. A carreira de Muelle (1965-1995) é indissociável da história recente da arte urbana em Madrid. A sua caraterística seta nasceu no bairro de Campamento e, em poucos anos, espalhou-se dos muros dos subúrbios para as esquinas mais centrais, tornando-se um símbolo da Movida Madrileña e o emblema de uma geração que procurava transformar a cidade através da arte e do espaço público.
Muelle e arte urbana em Madrid

Reconhecido hoje como um pioneiro do graffiti em Espanha e um ícone cultural de Madrid, Muelle soube fundir a influência nova-iorquina com a sua própria identidade, popularizando uma fórmula criativa que, na altura, era disruptiva, alternativa e fora dos circuitos oficiais. O que começou por ser uma transgressão adolescente é, graças a decisões como esta, património e cultura protegidos “com letra maiúscula”, nas palavras de Fernando Argüello, irmão do artista.
Apesar deste reconhecimento, a legislação contra o graffiti foi endurecida no último ano na capital. A coima mínima para os graffitis ilegais aumentou de 600 para 3.000 euros e os infractores só podem evitar o pagamento da multa se removerem pessoalmente os graffitis, num trabalho supervisionado pela Câmara Municipal. Este protocolo obriga agora os infractores a limparem as mesmas zonas afectadas e, em função do montante da multa, devem enfrentar entre 14 e 60 horas de trabalho de limpeza, dependendo de cada caso. Além disso, Madrid dispõe de patrulhas permanentes anti-graffiti, de reforços de limpeza e de sanções cumulativas, como aconteceu em 2025 em Alcobendas, onde um infrator foi alvo de mais de 11.000 euros de sanções.