Madrid vive um momento complexo de transformação. Por um lado, estão a abrir mais hotéis de luxo do que nunca e o turismo continua a crescer (7% em 2025, segundo dados da Comunidade de Madrid), mas o aumento dos preços da habitação e do custo de vida em geral está a afastar os madrilenos da cidade para a periferia. O jornal económico Bloomberg alerta que é precisamente este fenómeno que está a fazer subir os preços e que está também a afastar os comércios e os modos de vida que davam personalidade própria à capital.
Na sua reportagem sobre Madrid, a Bloomberg descreve uma cidade em plena transformação, com um boom que gera muito dinheiro, mas também consequências visíveis no dia-a-dia dos bairros. O texto destaca como novos alojamentos, cadeias internacionais e negócios orientados quase exclusivamente para o visitante estão a substituir lojas históricas e bares de sempre, mudando a fisionomia de ruas que há anos eram muito mais locais.
O meio de comunicação económico sublinha que o turismo impulsiona o emprego e o crescimento, mas alerta para o reverso da medalha: o aumento das rendas comerciais e residenciais e a pressão sobre os moradores que não conseguem competir com os valores que hotéis, franquias e apartamentos turísticos estão dispostos a pagar. Ao mesmo tempo, salienta que parte da vida noturna madrilena e alguns espaços emblemáticos estão a «homogeneizar-se», tornando-se mais parecidos com zonas premium de outras capitais europeias e perdendo características que tornavam a cidade única. Um dos casos mais dolorosos dos últimos tempos foi o do Café Central, um dos poucos locais de jazz que resistiam
Luxo e turismo em números: um motor com efeitos secundários

O diagnóstico da Bloomberg surge num contexto em que o turismo de luxo em Madrid atravessa o seu melhor momento: os hotéis de cinco estrelas chegaram aos 39 em 2024 e representam apenas 5% dos alojamentos, mas contribuem com 26% das despesas com alojamento e geram cerca de 30% do emprego no setor hoteleiro. De acordo com um estudo elaborado pela rede de agências Virtuoso para a Câmara Municipal e a Comunidade, cada turista de «alto impacto» tem um impacto total estimado de 6.860 euros por viagem, quase 1.000 euros por dia, muito acima da despesa média do visitante comum.
Este perfil de viajante procura experiências exclusivas, gastronomia de autor e alojamentos singulares em edifícios históricos, o que impulsionou a reabilitação de imóveis icónicos como hotéis de luxo e revalorizou muitos eixos comerciais. Mas essa mesma dinâmica encarece o mercado imobiliário e cria tensão nos bairros onde a distância económica e social entre quem vive e quem visita é cada vez maior, algo que especialistas citados na imprensa local descrevem como uma crescente incapacidade de «conviver» com o madrileno comum: já não se partilham restaurantes, horários nem espaços do dia a dia.
Esta substituição progressiva transforma bairros antes muito reconhecíveis – pela sua mistura de comércio de bairro, bares tradicionais e serviços do dia-a-dia – em zonas cada vez mais parecidas entre si: lembranças, cadeias globais, experiências “instagráveis” e uma oferta gastronómica que se repete de cidade em cidade. O risco, sublinha a Bloomberg, é que Madrid perca precisamente aquilo que a tornava atraente. O seu caráter espontâneo, as suas praças frequentadas pelos vizinhos e não apenas pelos visitantes, os seus mercados e bares onde ainda se misturavam turistas e residentes.
Em última análise, o «grande risco» que a Bloomberg aponta é que Madrid se torne um cenário muito lucrativo, mas cada vez menos habitável para quem a sustenta no dia a dia. O desafio passa por algo tão complexo como conseguir que mais luxo e mais turismo não signifiquem menos Madrid.